Sexta-feira, Setembro 17, 2021
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Crença e Costumes de Na Tcha, o deus que salvou a cidade

Adorado em grande parte do Sudeste Asiático, Na Tcha ganhou destaque na cultura de Macau há cerca de um século. Ter salvado a cidade de uma praga valeu-lhe o respeito da população local, que desenvolveu costumes e rituais próprios que se repetem ano após ano

Texto: Catarina Brites Soares | Fotos: Tatiana Lages

A Crença e os Costumes de Na Tcha de Macau, transmitidos de geração em geração, foram inscritos na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial em 2014. São muitas as lendas sobre a divindade, mas a que conta Ip Tat, presidente da Associação do Templo de Na Tcha, diz que, por volta de 1840, uma forte pandemia atingiu Macau e as zonas vizinhas no Interior do País, deixando um rasto de morte e doença.

Foi por causa da praga de ratos que assolou o território no século XIX que a adoração a Na Tcha ganhou relevância na região. “Na Tcha apareceu em sonhos a um crente e revelou-lhe a cura. Disse que a solução era misturar algumas ervas em água”, conta Ip Tat. “Foi assim que a pandemia se resolveu. O Templo de Na Tcha foi construído no Pátio do Espinho porque consta que essa aparição terá sido na zona das Ruínas de São Paulo”, acrescenta.

Ainda que o protagonismo de Na Tcha na cultura local tenha só cerca de um século, a adoração à divindade remonta há mais de 300 anos. O Instituto Cultural (IC) refere que, segundo a lenda, durante a Dinastia Qing havia um rapaz com um peitilho chinês e de cabelo enrolado a formar dois puxos, que brincava com outras crianças, subindo para cima de rochas. Embora a encosta fosse íngreme, nunca houve nenhum acidente. Como o aspecto da criança era muito similar ao da figura lendária, a população acreditava que Na Tcha se tinha feito representar pelo miúdo.

Na Tcha é também um dos personagens de romances clássicos chineses do século XVI, tais como Fengshen Bang (A Investidura dos Deuses), da autoria de Xu Zhonglin e Lu Xixing, e Xi Lu Ji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng’en. Nas duas obras publicadas na Dinastia Ming, Na Tcha é retratado com poderes mágicos que eliminam os demónios e representado como uma criança montada nas Rodas de Fogo de Vento, com poderes omnipotentes para afastar demónios e desastres.

A imagem da criança é-lhe sucessivamente associada por causa do mito que diz que terá encarnado numa criança para salvar a humanidade de desastres no mar e na terra. “É um deus associado a muitos feitos. Além de curar os males da Terra, como as pandemias, é conhecido na mitologia como capaz de combater os maus espíritos e de ter a capacidade de proteger”, refere o IC.

Por causa dos seus poderes, sempre que havia uma praga, crianças doentes ou a necessidade de afastar maus espíritos da cidade, as pessoas recorriam a Na Tcha, tornando-se parte das crenças populares e o patrono das crianças.

Na Tcha vai buscar o simbolismo a duas figuras da mitologia: carrega as qualidades do espírito da natureza Nalakubar, filho de Kubera – o Senhor da Riqueza e protector do mundo; e do deus infantil Krishna – deus da compaixão, ternura e amor. Reza a história que Na Tcha terá nascido durante a Dinastia Shang.

Na Tcha mantém-se vivo e enraizado na cultura popular pelos mitos e lendas, mas também por causa dos costumes e crenças próprias que diferem das regiões vizinhas, onde também é adorado.

Embora Macau tenha suspendido a realização de festivais relacionados com Na Tcha durante cerca de três décadas, entre 1960 e 1990, a tradição persistiu. Paralelamente à construção de altares, actividades como desfiles, carros alegóricos, fabrico de amuletos da sorte, corrida de panchões, distribuição de arroz da paz e óperas chinesas celebram a cada ano Na Tcha, sobretudo em três datas.

Rituais e tradições

A mais importante homenagem a Na Tcha é assinalada no 18.º dia do quinto mês do calendário lunar, embora as festividades para celebrar o seu aniversário durem quatro dias – do 16.º ao 19.º do quinto mês lunar. A data é assinalada nos dois templos dedicados à divindade: o contíguo às Ruínas de S. Paulo e o da Calçada das Verdades.

O primeiro dia das festividades começa com três rituais: queimar incenso e pedir a Na Tcha por segurança; apelar à “mudança de sorte”, caso o ano tenha sido negativo; e, finalmente, pedir que ajude as almas que estão a sofrer no Inferno, para que possam regressar como humanos na vida seguinte.

“Partindo da ideia de reencarnação, há a crença de que os espíritos bons voltam em forma de pessoas e os maus reencarnam em animais. Na Tcha ajuda as almas que estão a sofrer no Inferno a corrigirem-se de maneira que voltem à Terra como humanos, considerado o estado mais perfeito”, detalha Ip Tat.

Do primeiro ao último dia, há vários banquetes em sua homenagem, que agrupam 30 mesas com 12 lugares cada, e nos quais é servido o “pen cai” (盆菜), “pun choi”, em cantonês, prato festivo composto por várias camadas de carnes variadas, peixes, marisco e legumes, e que significa abundância na cultura chinesa. As festas também incluem nove actuações de óperas chinesas, encaradas como forma de entreter e homenagear Na Tcha.

No segundo dia, tem lugar um dos momentos altos das celebrações. Às 14h30, começa o desfile que percorre a cidade com 28 grupos, trajados com motivos que recontam episódios da lenda de Na Tcha. Na dianteira segue o que vai de dragão (símbolo de paz e harmonia), seguido dos participantes que se vestem de leão (prosperidade e sorte nos negócios). “Todos os símbolos que se usam no desfile têm relação com a história de Na Tcha. As equipas preconizam valores e imagens associados à divindade como a segurança, o exorcismo e a prosperidade. Tem de haver um ambiente de harmonia”, sublinha Ip, acrescentando: “Tudo o que começa com dragões é bom sinal na cultura chinesa”.

O desfile começa nas Ruínas de São Paulo, passa pelo Largo do Senado, segue pelas ruas dos Ervanários e 5 de Outubro, vai à zona da Igreja de Santo António em frente ao Jardim Luís de Camões e termina onde começou. “Demora perto de duas horas e meia. Antes era ainda mais longo, mas tem sido reduzido para não prejudicar o trânsito”, ressalva o presidente da Associação do Templo de Na Tcha.

No dia seguinte há outra rota pela cidade com a estátua, mas que além de Macau percorre também a Taipa e Coloane. “Entende-se que Na Tcha deve ver e saudar toda a comunidade para dar sorte e prosperidade a todos os habitantes e negócios. Com a estátua, vão ainda equipas de dança do dragão e do leão”, descreve. O desfile mais abrangente começa às 9h00 e termina às 17h00.

Outro dos rituais que marca o aniversário é a chamada “corrida de panchões”. À noite, são lançados 12 panchões e o objectivo é apanhar a flor que cai quando rebentam. Os vencedores têm direito a envelopes vermelhos com dinheiro e a estátuas de Na Tcha.

Há mais dois momentos solenes dedicados a Na Tcha: no início e no fim do Ano Novo Chinês. O primeiro para se pedir sorte para a nova fase e o segundo para se agradecer o que aconteceu de bom no ano que termina. “Todos os anos, assinalamos com vários rituais estes três momentos. O mais longo é o do aniversário, sendo que os outros dois só demoram um dia cada”, esclarece Ip.

Nas celebrações do Ano Novo, explica o líder associativo, convida-se Na Tcha a sair do templo para ser adorado e para que os crentes possam fazer as tradicionais oferendas de fruta, dinheiro e flores. Também é organizado um jantar, mas num restaurante e não em formato banquete como acontece aquando do aniversário.

Ip salienta que a crença e os costumes de Na Tcha não são exclusivos de Macau. Taiwan, Singapura e Vietname são outros dos territórios onde este deus também é adorado e onde é conhecido como Santaizi. “É uma crença especialmente vincada em Taiwan, onde a estátua de Na Tcha está em mais de 16 mil templos”, realça Ip Tat. “Há turistas de Taiwan, Singapura, Vietname e de outros locais que vêm a Macau de propósito para assistir ao Festival de Na Tcha.”

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A Casa de Na Tcha

O Templo de Na Tcha, um dos que existe em Macau dedicado à divindade, foi construído no início da Dinastia Qing (1644-1912) e renovado no 24.º ano do reinado do Imperador Guangxu (1898). De dimensões mais modestas face a outros na cidade, este templo tem um pequeno pavilhão com um altar para as oferendas e um queimador de incenso, tudo em granito. Em 2005, passou a ser considerado Património Mundial no âmbito da candidatura do Centro Histórico de Macau aprovada pela UNESCO. Ao lado do templo, foi inaugurada em 2012, a Sala de Exposições de Na Tcha, uma construção que alia o tradicional ao moderno, com uma área total de cerca de 70 metros quadrados. Esta sala apresenta a lenda de Na Tcha e respectivas festividades, e nela se expõem objectos usados na celebração do aniversário da divindade, como incensários, dísticos, objectos de cortejos, como a liteira de Na Tcha, o sombreiro cerimonial, cabeças de leão, e ainda panchões. A exposição apresenta oito gravuras que explicam as origens da lenda de Na Tcha de uma forma didáctica, da autoria do popular cartoonista local Ah-Cheng. Neste espaço encontram-se ainda artefactos e vestígios de construções descobertos em escavações arqueológicas, que os especialistas consideram ter pertencido à ala Oeste da Igreja da Madre de Deus.

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